FDA aprova leucovorina para deficiência cerebral de folato, não para autismo

A Food and Drug Administration (FDA, agência americana similar à Anvisa) aprovou na terça-feira, 10, o uso da leucovorina no tratamento de crianças e adultos com uma condição genética que limita o fornecimento de folato (uma forma de vitamina B) ao cérebro.

Trata-se do primeiro tratamento aprovado pela agência para a doença, considerada ultrarrara.

A aprovação, porém, não faz menção a pacientes com autismo, na contramão das declarações do presidente Donald Trump e de funcionários do governo de que o medicamento mostrava grande potencial para pessoas com a condição.

Em uma coletiva de imprensa na Casa Branca em setembro, Trump e o comissário da FDA, Marty Makary, anunciaram que o medicamento estava sendo analisado para pacientes com TEA, que em alguns casos apresentam uma forma de deficiência da vitamina B12.

Segundo a Associated Press (AP), altos funcionários da FDA afirmaram que a análise foi restringida para se concentrar nas evidências mais fortes, que apoiavam o uso do medicamento apenas por pacientes com a mutação genética. Eles também salientaram que um estudo que apoiava a utilização do medicamento no tratamento do autismo foi retratado no início deste ano.

Cientistas que estudam o transtorno do espectro autista (TEA) reiteraram na terça-feira, 10, que o medicamento não se mostrou seguro ou eficaz para a grande maioria das pessoas com a condição.

“Não há evidências comprovando que a leucovorina ajuda a maioria das pessoas com autismo, e certamente não há evidências que comprovem sua segurança”, afirmou à AP Alycia Halladay, da Autism Science Foundation.

Alycia acrescentou ainda que não há um número estabelecido de quantas pessoas com autismo têm alguma forma de distúrbio cerebral relacionada ao folato.

Aumento nas prescrições

A Academia Americana de Pediatria não recomenda o uso rotineiro de leucovorina para crianças com autismo.

Ainda assim, um estudo publicado na revista científica The Lancet no último dia 5 revelou que as prescrições do medicamento para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos foram 71% maiores do que o normal nos três meses posteriores à coletiva de imprensa de Trump.

“Observamos um aumento enorme nas prescrições de leucovorina para autismo devido ao anúncio inicial prematuro e mal informado de que ela poderia tratar os sintomas do autismo”, disse David Mandell, especialista em autismo da Universidade da Pensilvânia, à AP. “Agora, as famílias estão confusas sobre o que constitui a melhor prática para seus filhos.”

Alycia alerta os pais para que não busquem o medicamento, mencionando relatos de efeitos colaterais, incluindo irritabilidade, agressividade e hiperatividade, quando usado em pessoas com autismo.

“Se os pais insistirem em tentar isso, devem saber que pode causar danos e não trazer nenhum benefício”, disse ela.

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