À meia-noite desta quarta-feira (22), entrou em vigor a tarifa adicional de 25% imposta pelo governo do presidente Donald Trump sobre parte das exportações brasileiras. Segundo especialistas, o custo adicional gerado pela medida pode reduzir a margem de lucro dos exportadores e ser repassado aos consumidores nos Estados Unidos.
Para o professor de Ciências Contábeis da Estácio, Alisson Batista, o principal efeito será o encarecimento dos produtos brasileiros no mercado americano, o que dificulta as exportações, porque “parte desse aumento acaba sendo repassada ao consumidor americano e outra parte é absorvida pelo exportador brasileiro”, explica.
Segundo Batista, a redução das exportações pode provocar efeitos em cadeia, como diminuição da produção, adiamento de investimentos e até impactos sobre o emprego em segmentos específicos. Apesar disso, ele avalia que o risco de uma inflação generalizada no Brasil é baixo. “Produtos que deixam de ser exportados aumentam a oferta no mercado interno, o que pode até pressionar os preços para baixo. O maior impacto tende a ficar concentrado nos setores que dependem mais das vendas aos Estados Unidos”, afirma. É o caso das indústrias de máquinas e equipamentos, calçados, vestuário, papel, madeira, açúcar e etanol.
Exceções ao tarifaço
Na prática, tarifaço funciona como um pedágio extra para a entrada de produtos brasileiros nos Estados Unidos. Nem todos os produtos, porém, foram atingidos. Permanecem fora da sobretaxa itens considerados estratégicos para os Estados Unidos, como café, carne bovina, aeronaves e peças da indústria aeronáutica, além de alguns produtos minerais.
Segundo dados da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), cerca de US$ 7,2 bilhões — o equivalente a 18,9% dos US$ 38 bilhões exportados anualmente pelo Brasil aos Estados Unidos — serão afetados pela nova cobrança.
A medida coloca o Brasil como o segundo país mais atingido pelas sobretaxas dos EUA, atrás apenas da China.
Negociações
Enquanto as tarifas passam a valer, o governo federal intensifica as negociações para tentar reduzir seus efeitos. Nessa terça-feira (21), o vice-presidente Geraldo Alckmin iniciou uma série de reuniões com representantes dos principais setores afetados para discutir medidas de apoio e estratégias de resposta.
Participam das conversas representantes da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) e Anip (Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos).
O presidente da Abimaq, José Velloso, defendeu que o Brasil mantenha a negociação diplomática com Washington e evite, neste momento, adotar medidas de reciprocidade.
Desde o anúncio da sobretaxa, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem criticado a decisão americana. Em nota divulgada na semana passada, classificou a medida como um “marco lastimável” na relação entre os dois países e afirmou que não há justificativa para a imposição unilateral das tarifas.
Apesar do impacto imediato, especialistas avaliam que o tarifaço representa um desafio importante, mas não uma ruptura nas exportações brasileiras. Entre as alternativas apontadas estão a ampliação de mercados na União Europeia, Ásia, Mercosul e China, além da continuidade das negociações diplomáticas entre os dois países.
*Estadão Conteúdos/Foto: Reuters


