A virada histórica de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial abre uma nova etapa de desafios políticos e econômicos que o petista terá de enfrentar em seu quarto mandato.
Depois de anunciar benefícios e programas para conquistar eleitores na reta final, Lula terá de cumprir as promessas em um cenário de contas públicas pressionadas, Congresso mais à direita e forte divisão no eleitorado, além de lidar com uma crise no Judiciário.
O resultado encerrou uma disputa contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) marcada pela reação de Lula no segundo turno, depois de terminar a primeira votação atrás do adversário e chegar à véspera da eleição em desvantagem nas pesquisas.
No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma vantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
Neste domingo (25), Lula venceu com 64,2 milhões de votos (51,79%), contra 59,8 milhões (48,21%), uma diferença de 4,4 milhões de votos — mais que o dobro da vantagem de 2,1 milhões obtida contra Jair Bolsonaro em 2022.
A mobilização também reduziu a abstenção de 21,08% para 19,22% entre os dois turnos, o menor índice em 20 anos.
Promessas na reta final
A campanha de Lula ganhou uma nova agenda depois do primeiro turno, em 4 de outubro. Para recuperar terreno, o governo anunciou medidas voltadas a públicos que enfrentavam dificuldades com crédito, endividamento e renda.
Uma das principais iniciativas foi o pacote destinado aos MEIs (microempreendedores individuais), sancionado em 21 de outubro, quatro dias antes da votação.
A nova lei prevê perdão de dívidas tributárias federais, aumento gradual do limite anual de faturamento de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além da possibilidade de contratar até dois empregados. Segundo o governo, mais de 3,6 milhões de microempreendedores poderão ser beneficiados pelo perdão de débitos.
Lula também anunciou uma versão universitária do Pé-de-Meia, programa que oferece incentivos financeiros para estudantes de baixa renda. A proposta prevê pagamentos de R$ 700 mensais durante dez meses e uma reserva anual de R$ 2.500, disponível após a graduação. A estimativa inicial é de R$ 4,6 bilhões por ano.
Outra promessa foi uma nova etapa do Desenrola, programa de renegociação de dívidas. A intenção é realizar leilões de carteiras de crédito para oferecer descontos a microempreendedores. O volume potencial de débitos foi estimado em até R$ 150 bilhões, mas o alcance vai depender da adesão dos credores.
O endividamento foi um dos temas centrais da disputa. Segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio), 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho, enquanto 29,8% estavam inadimplentes.
Na campanha, Lula também associou parte das dificuldades financeiras das famílias às apostas on-line. Em setembro, o governo editou uma medida provisória para proibir as chamadas bets.
A continuidade dessas políticas, assim como a implementação de novos benefícios, exigirá recursos, regulamentações e negociações com o Legislativo.
Contas públicas pressionadas
O conjunto de promessas terá de caber em um Orçamento com pouca margem para novas despesas.
O projeto orçamentário de 2027 prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões antes dos ajustes fiscais autorizados pela legislação. O mercado, porém, projeta déficit de R$ 44 bilhões e dívida bruta equivalente a 87% do PIB (Produto Interno Bruto), segundo o Ministério da Fazenda.
Mais de 90% das despesas primárias previstas são obrigatórias, o que restringe o espaço para investimentos e novos programas.
O governo também terá de administrar gastos previdenciários, despesas com saúde e educação e a necessidade de manter os investimentos públicos.
Outro problema é o custo do crédito. Com a taxa Selic em 13,75% ao ano, os juros elevados dificultam o acesso ao financiamento por famílias e empresas e pressionam as despesas do governo com a dívida pública.
O desafio será conciliar a expansão dos programas anunciados na campanha com o controle das contas públicas e a recuperação do poder de compra da população.
Congresso mais à direita
A vitória de Lula ocorre ao mesmo tempo que o bolsonarismo ampliou sua representação no Legislativo.
O PL elegeu 121 deputados federais, ante 97 em 2022, e conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado, passando a contar com 28 parlamentares na Casa.
O crescimento dá ao partido maior influência sobre as negociações legislativas e pode dificultar a aprovação de propostas do governo, especialmente as mudanças constitucionais que exigem apoio de três quintos dos parlamentares.
Lula continuará dependendo de acordos com partidos do Centrão, que terão papel decisivo na formação de maiorias.
A disputa pelo controle do Congresso já começou. Na Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) reuniu apoio de 12 partidos para tentar a reeleição à Presidência da Casa. No Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) busca permanecer no cargo e poderá enfrentar uma candidatura do PL, que tem Rogério Marinho (RN) entre seus principais nomes.
As duas eleições ocorrerão em fevereiro de 2027 e influenciarão diretamente a relação entre o Executivo e o Congresso.
Pressão por mudanças no STF
O novo Congresso também poderá ampliar a pressão por mudanças no STF (Supremo Tribunal Federal).
Parlamentares da direita defendem restrições a decisões individuais de ministros, alterações nas regras de funcionamento da Corte e a análise de pedidos de impeachment contra magistrados.
A discussão ganhou força durante a campanha, em meio às revelações das investigações sobre o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro.
Documentos e mensagens divulgados no caso levantaram questionamentos sobre contatos, relações comerciais e possíveis conflitos de interesses envolvendo pessoas próximas a integrantes do Supremo.
Entre os episódios estão negócios envolvendo familiares de ministros e viagens em aeronaves relacionadas a Vorcaro. As informações provocaram pedidos de esclarecimento, mas a existência da possibilidade desses vínculos, por si só, desgastaram o Supremo.
O Senado será uma das principais arenas dessa disputa, porque é responsável por analisar indicações de ministros do STF e processos por crimes de responsabilidade contra integrantes da Corte.
Com a bancada ampliada, o PL poderá intensificar as cobranças por mudanças no Judiciário.
País dividido
Além dos desafios econômicos e institucionais, Lula iniciará seu quarto mandato diante de um eleitorado fortemente dividido.
Apesar da virada e da vantagem de 4,4 milhões de votos, Flávio terminou a disputa com 48,21% dos votos válidos, demonstrando a força eleitoral da oposição.
A rejeição aos dois candidatos também permaneceu elevada. Pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro mostrou que 48% dos entrevistados rejeitavam Lula e o mesmo percentual rejeitava Flávio, considerando também aqueles que declaravam não votar em nenhum dos dois.
Esses números não significam que todos os eleitores do senador desaprovem o governo, mas mostram a dificuldade de reduzir a polarização depois de uma campanha marcada por ataques e acusações.
Lula também terá de administrar as expectativas dos próprios apoiadores, especialmente daqueles que aguardam a implementação dos programas anunciados durante o segundo turno.
*R7/Foto: Ricardo Stuckert/PR – 24.10.2026


