Governo busca acordos no Congresso esvaziado para não depender do Centrão

Com Câmara e Senado praticamente esvaziados nas próximas semanas por causa das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta deixar encaminhada a agenda que encontrará quando o Congresso retomar as votações.

A estratégia é preservar os acordos já firmados com os presidentes das duas Casas e evitar nova rodada de negociações com o Centrão depois das urnas.

Lula, no entanto, já havia iniciado essa tratativa pessoalmente. Em 26 de agosto, o petista recebeu no Palácio da Alvorada os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para discutir pacote de prioridades antes do esvaziamento do Congresso.

Entraram na lista o fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública, a MP da taxa das blusinhas, o marco dos minerais críticos e o Redata, regime que concede incentivos fiscais para a instalação e ampliação de data centers no país.

Parte do acordo foi cumprida no esforço concentrado da semana passada. O Congresso aprovou o Redata, a política de minerais críticos e a MP que permite zerar novamente o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50.

No caso da chamada “taxa das blusinhas”, porém, havia pressão adicional de calendário. A medida provisória perderia a validade em 8 de setembro caso não passasse pela Câmara e pelo Senado, o que obrigava o Congresso a dar resposta ainda nesse esforço concentrado.

As principais pendências agora são:

  • Fim da escala 6×1: o texto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e está pronto para o plenário. Lula queria avançar com a proposta antes da eleição, mas o governo admitiu não ter, neste momento, segurança dos 49 votos necessários para aprovar uma PEC;
  • PEC da Segurança: a CCJ aprovou o texto principal, mas ainda precisa analisar destaques antes de enviar a proposta ao plenário. A votação na comissão, portanto, não foi concluída;
  • LDO e Orçamento de 2027: o Congresso ainda não aprovou a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que estabelece as regras para a elaboração do Orçamento. Com a proposta orçamentária já enviada pelo governo, as duas matérias terão de avançar praticamente ao mesmo tempo.

Alcolumbre disse que o Senado voltará a concentrar votações depois do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A própria PEC do fim da escala 6×1, uma das principais bandeiras eleitorais de Lula, deve ficar para esse período.

No governo

Para o Planalto, manter os acordos feitos até agora é importante porque o cenário no Congresso será diferente depois das eleições. Haverá parlamentares reeleitos, derrotados ou eleitos para outros cargos, enquanto partidos de centro já estarão discutindo a próxima legislatura, espaços no governo, emendas e comando da Câmara e do Senado.

A preocupação do governo é evitar chegar a esse período dependente de nova negociação com o Centrão para aprovar cada uma de suas prioridades.

Ao deixar parte da agenda previamente acertada com os presidentes das Casas e líderes partidários, o Planalto tenta reduzir o espaço para novas cobranças políticas quando as votações forem retomadas.

Na quinta-feira (3/9), Lula criticou a atuação da oposição durante a análise da PEC do fim da escala 6×1 e fez referência direta ao senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), embora não tenha citado o nome do parlamentar.

“Ontem, o Brasil testemunhou, mais uma vez, quem é quem no Congresso Nacional. Enquanto tentávamos avançar com a PEC que acaba com a jornada 6×1 no Senado, a oposição, capitaneada pelo coordenador da campanha do meu opositor na corrida presidencial, atuava para impedir o avanço da pauta”, escreveu.

 

O presidente completou: “É importante que o Brasil saiba quem está trabalhando para avançar com essa mudança e quem está tentando impedir uma conquista que pode garantir um dia a mais de descanso sem redução de salário”.

Marinho foi um dos quatro senadores que se manifestaram contra a proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e apresentou texto alternativo, rejeitado pelo colegiado.

A decisão de não levar a PEC imediatamente ao plenário, no entanto, também passou pela avaliação do próprio governo sobre os votos disponíveis. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), relatou que Alcolumbre questionou a segurança da base antes de eventual votação.

“Ele [Alcolumbre] perguntou: ‘Tem segurança de que tem votos?’. Se tínhamos garantia sobre os votos e, pelo mapeamento que nós tínhamos, nós não tínhamos certeza. Diante do papel e pela mobilização da oposição, achamos melhor e mais prudente ver o momento em que podemos ter os votos necessários”, pontuou.

A cobrança sobre Alcolumbre se deu de forma cuidadosa. Antes do esforço concentrado, Lula dizia a aliados ter recebido sinalização do presidente do Senado de que a 6×1 poderia ser votada entre 1º e 2 de setembro. A proposta avançou na CCJ, mas não chegou ao plenário.

Na quinta-feira (3/9), Alcolumbre prometeu retomar a matéria depois das eleições.

“Aproveito essa oportunidade que o senador Paulo Paim está aqui na mesa para dizer a vossa excelência e ao Brasil que vossa excelência estará aqui votando após as eleições o fim da escala 6×1 no plenário do Senado Federal.”

 

O adiamento ocorreu mesmo com a retomada do diálogo entre Lula e Alcolumbre. A 6×1 havia ficado 85 dias parada na presidência do Senado e só foi enviada à CCJ depois da reaproximação entre os dois.

A PEC da Segurança Pública também foi destravada nesse movimento, e os dois textos fizeram parte do pacote de prioridades discutido pelo presidente da República com Alcolumbre e Hugo Motta (Republicanos-PB).

Crise

A negociação é realizada em ambiente político mais tenso. O embate entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, no caso Daniel Vorcaro, ampliou a tensão no Supremo Tribunal Federal (STF) e deu nova munição à oposição no Congresso.

Senadores passaram a aumentar a pressão sobre Davi Alcolumbre (União-AP) para que dê andamento aos pedidos de impeachment contra Moraes e ameaçaram travar pautas prioritárias de Lula. Alcolumbre, no entanto, resiste às cobranças e afirma não haver previsão para analisar os pedidos.

O desafio do governo, portanto, é fazer com que os entendimentos fechados antes das eleições continuem valendo quando o Congresso retomar as votações.

Quanto mais pautas ficarem sem acordo, maior será o risco de o Planalto precisar negociar novamente suas prioridades, a LDO, o Orçamento, emendas e outras demandas com um Centrão já voltado para a configuração de poder de 2027.

*Metrópoles/Foto: VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

Últimas Notícias

Zelensky: Ucrânia é “construtiva” e tem propostas prontas para negociar com a Rússia

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, reforçou neste domingo,...

Parcela de seniores investindo em FIIs salta para 60% em 6 anos, mostra pesquisa

A maturidade do investidor brasileiro de Fundos Imobiliários (FIIs)...

Datafolha: 46% estão mais preocupados com eleição do que em 2022 e 57% mais decididos a votar

Quase metade dos eleitores brasileiros afirma estar mais preocupada...

Homem é preso em flagrante por agredir companheira no interior de SP

Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência...

Nos sigaRedes Sociais

255,324FãsCurtir
0SeguidoresSeguir
128,657SeguidoresSeguir
97,058InscritosInscrever

NewsletterAssine

Fique Ligado

Elton John publica vídeo raro de show no RJ em 1995 às vésperas do Rock In Rio

Às vésperas de seu show no Rock In Rio...

Fernando Alonso e Liam Lawson recebem punição e vão largar do pit-lane em Monza

Os pilotos Fernando Alonso e Liam Lawson receberam punições...

Washington Post: Trump perde tempo para restringir voto por correio antes do envio de cédulas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está ficando...

Sem Neymar, Santos visita o Inter em confronto direto na luta contra o rebaixamento

Internacional e Santos entram em campo neste domingo, às...

Zelensky: Ucrânia é “construtiva” e tem propostas prontas para negociar com a Rússia

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, reforçou neste domingo,...

notícias relacionadas

Datafolha: 46% estão mais preocupados com eleição do que em...

Quase metade dos eleitores brasileiros afirma estar mais preocupada com o resultado da eleição presidencial deste ano do que estava em 2022, segundo pesquisa...

Lula: Dizer que vacina faz a pessoa virar gay ou...

O presidente da República e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez críticas à gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre...

Aécio Neves diz que MG ‘saiu do jogo político nacional’...

O candidato ao Senado por Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) afirmou nesta sexta-feira, 4, que o Estado "saiu do jogo político nacional" nos últimos...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui