Brasileira que viveu 50 anos acamada é declarada ‘venerável’ pela Igreja Católica

Uma brasileira que viveu quase 50 anos imobilizada em uma cama está a caminho de ser reconhecida como santa pela Igreja Católica. O papa Leão XIV autorizou o Dicastério do Vaticano para as Causas dos Santos promulgar um decreto que reconhece as virtudes heroicas de Maria de Lourdes Guarda.

Paulista de Salto, no interior de São Paulo, ela se tornou conhecida por sua luta pelas pessoas com deficiências ou doenças crônicas. O decreto reconhece os requisitos de vida necessários para o início do processo de beatificação e canonização na Santa Sé.

Se for canonizada será o segundo santo católico paulista, após São Frei Galvão, de Guaratinguetá, e a primeira mulher santificada.

Maria de Lourdes, que faleceu em 1996, aos 70 anos, viveu acamada desde os 21 anos de idade, quando sofreu uma grave lesão na coluna. A doença frustrou seu sonho de ser freira, mas não a impediu de se tornar uma leiga consagrada no Instituto Secular Caritas Christi, onde professou seus votos em 1970 e “usou a própria história para disseminar sua fé e defender os direitos das pessoas com deficiências”, segundo nota do Vaticano. Antes de ser venerável, ela havia sido declarada “serva de Deus” pela Igreja.

Nascida em 1926, de família de origens italianas, Maria de Lourdes enfrentou desde a juventude problemas na coluna que, aos 21 anos, a deixaram paralisada da cintura para baixo. Devido à enfermidade, foi confinada a um rígido colete de gesso e, mais tarde, imobilizada de forma permanente.

“Ao longo de quase cinco décadas vividas entre hospitais e a própria casa, Maria de Lourdes transformou sua enfermidade em missão apostólica, auxiliada por intensa vida de oração e profunda devoção eucarística”, diz o Vaticano.

O saltense Geraldo Geriel Guarda, sobrinho de Maria de Lourdes, conta que o quarto da tia no hospital virou ponto de referência para pessoas que buscavam consolo e orientações espirituais. “Ela dava conselhos, rezava pelas pessoas. Muitos a procuravam em momentos de aflição, e ela sempre tinha uma palavra que acalmasse e desse esperança”, diz.

Guarda conta que Maria de Lourdes queria ser freira, inspirada por uma irmã mais velha que se tornou religiosa. “Ela estudou em internato, no Colégio do Patrocínio, e lecionava no Colégio das Filhas de São José do Carbulotto. Mas aí veio a doença ela precisou desistir, pois as freiras trabalhavam muito, mantinham escolas e orfanatos, e ela ficou inapta para esse trabalho. Deus quis que ela servisse de outra forma.”

Ele nasceu em 1959 e no ano seguinte se mudou com seu pai para a região do Grande ABC paulista. “Ela estava internada no Hospital Matarazzo, na capital, e eu a visitava sempre. Cresci indo ao seu quarto no hospital, mas era um hospital particular e havia um custo. Os irmãos dela ajudavam com as despesas, mas ela não queria ser um peso e, com todas as limitações, passou a fazer bordados, tricô e crochê para ajudar no seu próprio custeio.”

Lourdes já havia perdido uma perna, amputada após uma sequência de cirurgias, mas isso não a impediu de se tornar uma espécie de conselheira espiritual, inclusive de médicos. “Na época, o Matarazzo recebeu um menino, o Zezinho, com câncer terminal, e minha tia o adotou. Ele tinha um sonho de conhecer o cantor Roberto Carlos, que estava no auge da fama. Minha tia conseguiu que uma carta dela chegasse até ele e, no dia seguinte, o cantor apareceu no quarto dela.”

Viajando de Kombi

Maria de Lourdes se tornou amiga do padre Geraldo Nascimento e manifestava desejo de sair do hospital para visitar presos e pessoas vulnerárias, como prostitutas.

“Um dia o padre ganhou um bingo e com o dinheiro comprou uma Kombi para minha tia. Foi na Kombi que ela viajou para o Rio Grande do Sul para conhecer a Fraternidade das Pessoas com Deficiência. Voltando de lá, ela e o padre passaram a criar núcleos para atender essas pessoas. Nos 10 anos em que ela dirigiu a fraternidade, foram criados mais de 250 núcleos no Brasil todo.”

A fama que Lourdes angariou com esse trabalho, segundo o sobrinho, levou a condessa Matarazzo a ir conhecê-la pessoalmente e determinar que nada mais fosse cobrado dela.

“Minha tia virou uma hóspede permanente e, quando o hospital fechou, no início dos anos 90, ela se tornou a única paciente. Médicos, enfermeiros e funcionários foram embora e ela ficou. Depois acabou sendo transferida para a pediatria em outro prédio “

Maria de Lourdes faleceu em 5 de maio de 1996, em São Paulo, vítima de um câncer na bexiga, com a fama de santidade já difundida e fortalecida após sua morte.

Guarda conta que o processo de beatificação é sigiloso e será conduzido pela Igreja, mas ele já ouviu relatos de graças alcançadas por intercessão da, agora, venerável. Os restos mortais dela estão em um altar na igreja matriz de Salto. que se tornou local de orações.

O sobrinho lembra que o processo para reconhecer Maria de Lourdes como santa ganhou impulso depois da publicação, pelo Estadão, de um artigo do jornalista Mauro Chaves, publicado na edição de 5 de abril de 2003, com o título ‘O Hino à Força da Vida’. O texto destaca uma frase atribuída a ela após o diagnóstico de que jamais andaria: “Deixei de andar, não deixei de viver”.

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