Morte de corredor leva SP a revisar protocolos para corridas de rua; entenda

A Prefeitura de São Paulo criou um grupo de trabalho para revisar os protocolos de segurança e atendimento médico em corridas de rua e outros eventos esportivos da capital paulista

A iniciativa foi anunciada dois dias depois da morte do publicitário e atleta amador Júlio Barreto, de 50 anos. Ele sofreu uma parada cardíaca após concluir a meia maratona da SP City Marathon, no domingo, 26 (saiba mais abaixo).

Segundo a medida assinada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), o grupo terá 20 dias para apresentar uma proposta com parâmetros mínimos de segurança, estrutura médica e atendimento de emergência para esse tipo de evento.

O objetivo é padronizar critérios técnicos que hoje envolvem diferentes órgãos municipais e entidades esportivas. Entre as atribuições do grupo estão:

– diagnosticar as exigências adotadas para a autorização de corridas de rua;

– estabelecer parâmetros mínimos de segurança e de atendimento médico-emergencial;

– definir uma matriz de responsabilidades entre os órgãos públicos e os organizadores nas etapas de autorização, realização e fiscalização dos eventos.

Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde informa que “revisa continuamente os fluxos assistenciais e os critérios técnicos aplicáveis aos eventos temporários na cidade”.

“Como parte desse processo de avaliação contínua”, continua o documento, “foi instituído um grupo de trabalho para revisar e aprimorar os procedimentos relacionados à realização de corridas de rua e eventos esportivos”.

De acordo com a Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC-SP), a Prefeitura de São Paulo ainda não tem um protocolo específico para corridas de rua. “Seria muito interessante termos esta conversa com eles e poder participar da construção deste protocolo, considerando tudo o que já se tem elaborado no Corrida Segura (protocolo nacional)”.

SP epicentro das corridas

São Paulo é hoje a cidade que mais recebe corridas de rua no Brasil. A previsão do setor é que cerca de 300 provas sejam realizadas na capital ao longo deste ano, entre eventos de 5 km, 10 km, meia maratona e maratona.

Segundo Guilherme Celso, presidente da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo), a realização de uma corrida depende de uma série de licenças municipais e da obtenção do chamado Permit, documento emitido pelas entidades responsáveis pela modalidade.

Existem três categorias de certificação – Bronze, Prata e Ouro. O Permit Bronze é concedido pela Federação Paulista de Atletismo; as demais categorias são homologadas pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Para obter a autorização, os organizadores precisam cumprir as exigências previstas na Norma 7 da CBAt, que estabelece critérios para aspectos como percurso, interdição de vias, guarda-volumes e estrutura médica.

O Anexo 3 da norma, produzida pela Abraceo, CBAt, Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) e Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC-SP), detalha o plano médico da prova, incluindo o número mínimo de ambulâncias, a distribuição dos desfibriladores, a presença de diretor médico e outros requisitos.

Além das regras da confederação, cada município possui exigências próprias para emissão dos alvarás necessários à realização dos eventos. “Há uma dupla fiscalização: das entidades esportivas e do poder público municipal”, afirma Guilherme Celso.

O especialista afirma que o protocolo municipal não deve substituir as normas já existentes. “O ideal é que ele seja complementar, considerando as particularidades locais, mas mantendo alinhamento com as diretrizes técnicas nacionais e com as normas que regem a emissão do Permit pelas Federações de Atletismo”, avalia.

O texto da CBAt também ressalta que a segurança das provas depende de uma atuação conjunta entre organizadores, equipes médicas e atletas, destacando que cabe ao participante manter sua avaliação clínica em dia e respeitar as orientações médicas antes da competição.

Morte reabre debate sobre segurança nas corrida

A criação do grupo ocorre após a repercussão da morte de Júlio Barreto, corredor que completou os 21 quilômetros da meia maratona da SP City Marathon e começou a se sentir mal na área de chegada.

A prova chegou à décima edição em 2026. A largada foi realizada na Praça Charles Miller, no Pacaembu, e a chegada aconteceu no Jockey Club, na zona sul da cidade. O evento reuniu atletas nas distâncias de 21,1 km e 42,2 km.

Segundo o boletim de ocorrência, Júlio reclamou de dores no braço logo após cruzar a linha de chegada. Enquanto caminhava em direção a uma ambulância disponibilizada pela organização da prova, sofreu um mal súbito e caiu.

O médico Miguel Carvalho Santacreu, que participava da prova e ajudou nos primeiros atendimentos, afirmou nas redes sociais nesta quinta-feira, 30, que houve demora de 15 minutos na chegada de uma ambulância com Desfibrilador Externo Automático (DEA).

“E aí continuamos tocando a parada ali (fazendo atendimentos) por uns 10 minutos, quando chegou a primeira ambulância. A primeira ambulância chegou com uma equipe de bombeiros, e sem nenhum médico. A gente solicitou um DEA, e eles falaram que naquela ambulância não tinha”, contou.

“Eu e dezenas de outras pessoas que estavam lá sabemos que o atendimento do evento demorou a chegar, não foi instantâneo. O primeiro foi com diversas falhas. Não vou falar que o desfecho poderia ter sido diferente, não sei. Mas a conduta toda poderia ter sido diferente”, revelou.

A Iguana Sports, organizadora da SP City Marathon, afirmou que “nenhuma estrutura médica, por mais completa que seja, consegue prevenir 100% desses eventos – o que ela consegue é reduzir o tempo entre o colapso e o primeiro atendimento, que é o fator que mais influencia a sobrevida”, afirma a nota assinada por Paulo Carelli, diretor de prova.

“E nós estávamos na linha de chegada a 100 metros onde tudo aconteceu com os DEAs, conforme registrado nos relatórios médicos e imagens fotográficas, que confirmam que o atleta recebeu atendimento protocolar assim que chegou a comunicação à equipe”, continua o comunicado.

“Infelizmente o quadro clínico do atleta não permitiu sua recuperação, apesar de todo esforço da equipe médica e adoção de todos os procedimentos de suporte avançado”.

A família ainda não se pronunciou oficialmente. O Estadão apurou que os parentes estão em contato frequente com os organizadores do evento. O caso foi registrado como morte natural pelo 7º Distrito Policial (Lapa), informou a Secretaria da Segurança Pública.

A Secretaria Municipal da Saúde informou que a SP City Marathon cumpriu as exigências médicas e que a infraestrutura voltada à assistência à saúde é de responsabilidade dos organizadores.

“Em grandes eventos realizados na cidade de São Paulo, é obrigatória a contratação de recursos de saúde, conforme previsto na Portaria SMS nº 490/2020, que estabelece as normas para elaboração dos Planos de Atenção Médica, que devem ser submetidos ao Grupo de Planejamento e Apoio a Eventos (GPAE), da SMS, exigência cumprida pela SP City Marathon”.

 

 

*Estadão Conteúdos/Foto: Reprodução Instagram

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