Hungria bloqueia novas sanções contra a Rússia e trava empréstimo da UE à Ucrânia

A União Europeia (UE) não conseguiu aprovar novas sanções contra a Rússia nesta segunda-feira, 23, após objeções de última hora da Hungria, informou a principal diplomata do bloco.

“Este é um revés e uma mensagem que não queríamos enviar hoje [segunda, 23]”, disse Kaja Kallas, chefe da política externa da UE. Ministros das Relações Exteriores tentavam finalizar as sanções juntamente com um novo empréstimo de grande porte para Kiev antes do quarto aniversário da guerra entre Rússia e Ucrânia, que deixou cerca de 1,8 milhão de soldados russos e ucranianos mortos, feridos ou desaparecidos.

A reunião buscava impor um custo econômico maior à Rússia pela guerra em larga escala lançada contra seu vizinho em 24 de fevereiro de 2022 e que não mostra sinais de terminar.

A Hungria, vista como o membro mais pró-Rússia da UE, ameaçou no fim de semana bloquear tanto as sanções quanto o empréstimo de 90 bilhões de euros, destinado a ajudar a Ucrânia a atender suas necessidades militares e econômicas pelos próximos dois anos.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, falou sobre o que chamou de quatro anos monstruosos de guerra em um evento pró-Ucrânia em Berlim nesta segunda. “Faço novamente um apelo aos nossos parceiros europeus: não diminuam o apoio, nosso apoio conjunto, à Ucrânia”, disse Merz. “Estamos em uma encruzilhada que pode decidir o bem-estar de todo o nosso continente.”

Em Paris, o presidente francês Emmanuel Macron declarou que a determinação de continuar apoiando a Ucrânia é inabalável. Ele se reuniu com o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, outro firme apoiador de Kiev, que pediu aos aliados europeus que aumentem os custos para o presidente russo Vladimir Putin.

Objeções da Hungria

Muitos líderes da UE esperavam avançar com o 20º pacote de sanções contra a Rússia, visando sua chamada frota fantasma e as receitas energéticas, antes do aniversário da guerra na terça-feira, 24.

Mas a Hungria afirmou que manterá sua posição até que as entregas de petróleo russo ao país sejam retomadas. O governo húngaro já havia concordado anteriormente com o empréstimo à Ucrânia. Kaja Kallas disse que voltar atrás nessa decisão vai contra os tratados da UE.

As remessas de petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia estão interrompidas desde 27 de janeiro após, segundo autoridades ucranianas, ataques de drones russos danificarem o oleoduto Druzhba, que transporta petróleo bruto russo pelo território ucraniano até a Europa Central.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, reforçou nesta segunda-feira uma acusação não comprovada de que a Ucrânia está deliberadamente retendo as remessas de petróleo russo e acusou Kiev de tentar derrubar seu governo. Ele se referiu às interrupções no fornecimento como um bloqueio petrolífero ucraniano liderado pelo presidente Volodmir Zelenski.

“Ninguém tem o direito de colocar nossa segurança energética em risco”, disse o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó, a jornalistas antes da reunião.

Pressão sobre a Rússia

Alguns líderes europeus ressaltaram que a forma mais eficaz de levar a Rússia a aceitar a paz na Ucrânia é elevar o custo para Moscou de continuar a guerra. ‘Esta guerra só terminará quando a Rússia não vir mais sentido em continuá-la, quando não puder mais esperar ganhos territoriais, quando os custos dessa loucura simplesmente se tornarem altos demais”, disse Merz. “Precisamos secar o financiamento de guerra de Moscou.”

O líder finlandês argumentou que a guerra da Rússia foi um fracasso estratégico ao defender o aumento da pressão sobre Putin. “Também é um fracasso militar, ele está agora perdendo muitos soldados, e além disso é um fracasso econômico”, disse Stubb, falando em francês. “Putin não está vencendo esta guerra, mas não consegue fazer a paz.”

A UE já enviou 194,9 bilhões de euros em assistência financeira à Ucrânia, ao mesmo tempo em que pressiona as principais exportações energéticas russas.

Quase todos os países da Europa reduziram significativamente ou interromperam as importações de energia russa desde o início da guerra em larga escala na Ucrânia. Ainda assim, Hungria e Eslováquia, membros da UE e da Otan, mantiveram e até aumentaram o fornecimento de petróleo e gás russos, recebendo uma isenção temporária da política da UE que proíbe importações de petróleo russo.

Eleição iminente na Hungria

Enfrentando uma eleição crucial em menos de dois meses, Orbán lançou uma campanha agressiva anti-Ucrânia e acusou o partido de oposição Tisza, que lidera a maioria das pesquisas, de conspirar com a UE e a Ucrânia para instalar o que chamou nesta segunda-feira de um governo pró-Kiev.

O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, afirmou acreditar que a ameaça de veto da Hungria pode estar relacionada à intensa disputa de Orbán para se manter no poder. Orbán, o líder mais longevo da UE, enfrentará o maior desafio ao seu poder desde que assumiu o cargo em 2010.

“Eu teria esperado um sentimento de solidariedade muito maior da Hungria com a Ucrânia”, disse Sikorski em Bruxelas. “O partido governista conseguiu criar um clima de hostilidade contra a vítima da agressão. E agora tenta explorar isso na eleição geral É bastante chocante.”

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