Com presença de Flávio, EUA iniciam debate sobre tarifaço contra o Brasil

Os Estados Unidos iniciam nesta segunda-feira (6), em Washington, uma série de audiências públicas para discutir a proposta de imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, no âmbito da investigação comercial aberta contra o Brasil com base na Section 301 do Trade Act.

As sessões serão realizadas na sede da U.S. International Trade Commission e vão reunir representantes dos setores produtivos de Brasil e Estados Unidos, entidades empresariais, especialistas e autoridades políticas.

Entre os participantes, um dos nomes de maior peso político será o do senador Flávio Bolsonaro, que falará durante o segundo dia de audiências, na terça-feira (7). Também participam do mesmo painel o ex-diretor-geral da OMC e ex-embaixador brasileiro Roberto Azevêdo, representantes da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e da indústria calçadista.

A investigação norte-americana analisa seis áreas consideradas sensíveis por Washington: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Nos bastidores, a expectativa está concentrada no posicionamento de Flávio Bolsonaro, que enviou uma manifestação formal à Casa Branca pedindo a suspensão das tarifas e a abertura de negociações bilaterais. No documento, protocolado em 1º de julho, o senador argumenta que o tarifaço não atinge o objetivo pretendido pelos Estados Unidos e, na prática, acaba fortalecendo politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Flávio sustenta que a medida pode gerar efeito contrário ao esperado por Washington. Segundo ele, o aumento das tarifas favorece a narrativa política do governo brasileiro e reforça o discurso de confronto com os Estados Unidos.

Na manifestação, o senador afirma que as tarifas “recompensariam exatamente a conduta que deveriam combater”, ao fortalecer eleitoralmente o atual governo brasileiro em meio à corrida presidencial de 2026.

O parlamentar também defende que os EUA substituam o tarifaço por medidas direcionadas a agentes específicos, em vez de penalizar toda a economia brasileira. Segundo ele, uma tarifa ampla de 25% prejudicaria exportadores, consumidores norte-americanos e empresas dos dois países, sem alterar as práticas que motivaram a investigação.

Defesa

Do lado brasileiro, o governo Lula apresentou uma defesa formal contestando a base jurídica da investigação e pedindo que Washington suspenda qualquer medida unilateral.

Na manifestação enviada ao USTR, o governo brasileiro rejeita as conclusões americanas e sustenta que não há comprovação de que políticas brasileiras sejam discriminatórias ou imponham restrições indevidas ao comércio dos EUA.

O Brasil também argumenta que a investigação extrapola os limites previstos na legislação comercial americana e transforma divergências regulatórias em disputa comercial. Para o governo, os EUA não demonstraram ligação concreta entre políticas brasileiras e prejuízo efetivo ao comércio americano.

Em relação ao Pix — um dos principais pontos de questionamento dos norte-americanos —, o governo brasileiro afirma que o sistema é uma infraestrutura pública aberta, com acesso não discriminatório e que, ao contrário do alegado, ampliou a competição no setor de pagamentos digitais, inclusive para empresas estrangeiras.

Nos bastidores diplomáticos, o Brasil também tenta construir uma saída negociada para evitar a escalada comercial. Como mostrou o R7, o governo brasileiro apresentou aos EUA uma proposta de “mapa do caminho” para suspender o tarifaço, com a abertura de uma agenda de negociação bilateral voltada à solução dos principais pontos de conflito.

A estratégia do governo é tentar ganhar tempo e evitar que a tensão comercial se transforme em um impasse diplomático de maiores proporções, sobretudo em meio ao ambiente pré-eleitoral tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

As audiências em Washington devem servir como termômetro para a decisão final do governo norte-americano sobre a adoção ou não das tarifas. A expectativa é de que os depoimentos desta semana ajudem a calibrar os próximos passos da Casa Branca nas negociações com o Brasil.

 

 

*R7/Foto: Carlos Moura/Agência Senado – 10.06.2026

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