Um relatório recente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) apontou a possibilidade de interferência direta dos Estados Unidos nas próximas eleições brasileiras, que ocorrem neste domingo (4).
Segundo o documento, para tentar frear a influência da China na América Latina, o governo norte-americano estaria intensificando ações que vão desde pressões diplomáticas até o possível financiamento de campanhas e o impulsionamento de perfis nas redes sociais.
Esse diagnóstico ganhou força na última semana, quando senadores democratas norte-americanos questionaram o secretário de Estado, Marco Rubio, sobre a postura de Donald Trump em relação ao pleito brasileiro.
Os parlamentares cobraram o reconhecimento do resultado das urnas.
Como pesquisadores que acompanham de perto a comunicação política, vemos nesses episódios um exemplo concreto de um fenômeno que investigamos a fundo nos últimos anos.
É claro que a tentativa de um país de influenciar a política interna do outro não é nenhuma novidade.
Os pesquisadores Paul Baines e Nigel Jones argumentam, no artigo Influence and interference in foreign elections (Influência e interferência em eleições estrangeiras, na tradução livre), que essas interferências sempre existiram, mas a diferença é que plataformas digitais lhes deram uma velocidade e uma camuflagem inéditas.
Mas como essa desestabilização ocorre no dia a dia? Para responder a essa pergunta, analisamos centenas de artigos e relatórios de inteligência, cruzando o que acadêmicos e órgãos de defesa já sabem sobre o uso das mídias digitais como armas diplomáticas.
O trabalho faz parte de uma dissertação de mestrado defendida recentemente no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da PUC-Rio.
Ao tentar entender como esses mecanismos funcionam, o primeiro erro é imaginar um cenário de filme.
Debate público
Quando se fala em interferência externa em processos eleitorais, a maioria das pessoas pensa em um ataque técnico, como um invasor roubando senhas ou alterando os números de uma urna eletrônica.
A nossa pesquisa mostra, contudo, que o alvo desses ataques não são máquinas, mas, sim, o debate público.
O artigo Hacking democracy, managing influence campaigns and disinformation in the digital age (Hackeando a democracia, gerenciando campanhas de influência e desinformação na era digital, na tradução livre), conduzido por Niels Schia e Lars Gjesvik, ilustra bem esse ponto.
Os autores concluem que o objetivo das campanhas modernas de influência cibernética não é derrubar sistemas informáticos, mas sim corroer a confiança nas instituições democráticas e moldar a percepção dos cidadãos.
Ao cruzar os estudos e os documentos de segurança, um padrão se torna claro. A interferência estrangeira não ocorre apenas nas vésperas da votação, mas também de forma contínua e “híbrida”.
Isso significa que agentes externos misturam táticas digitais, como contas automatizadas e clonagem de portais de notícias.
Por exemplo, o 3° relatório do Serviço Diplomático da União Europeia registrou 505 incidentes de ameaças digitais externas apenas em 2024.
Eles envolvem 68 mil conteúdos veiculados em 38 mil canais de diversas plataformas, com foco em disseminar rapidamente a desinformação.
Além disso, muitos anúncios são projetados para manipular emoções mescladas com ações no mundo real.
W. Lance Bennett e Steven Livingston, no artigo Platforms, politics, and the crisis of democracy (Plataformas, política e a crise da democracia, na tradução livre), afirmam que plataformas são desenhadas para prender a atenção, maximizando o engajamento emocional. Transformam-se em um campo de batalha invisível entre países.
*Estadão Conteúdos/Foto: Adriano Machado/Reuters – 4.9.2026


