Chanceler de Lula diz que risco de fragmentação do Irã preocupa governo

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quarta-feira, 18, perante o Senado Federal que o risco de fragmentação do Irã, por causa da guerra contra Israel e Estados Unidos, preocupa o governo brasileiro, sobretudo pela atuação de milícias armadas sem comando.

“Há preocupações quanto às possíveis consequências de um eventual fragmentação do Irã, cenário que poderia gerar instabilidade regional, fluxos migratórios em direção à região e proliferação de milícias armadas, atuando de maneira autônoma”, disse o chanceler, em audiência no Senado Federal.

Os Estados Unidos e Israel adotaram uma estratégia militar de decapitação das lideranças religiosas, civis e militares iranianas, uma forma de provocar a queda do regime islâmico.

Além do aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo do Irã, bombardeado no primeiro dia da guerra, já foram mortos dezenas de comandantes militares e, nas últimas horas, Israel comunicou ter executado o ministro de Inteligência, Esmail Khatib, além da morte já confirmada de Ali Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã.

Especialistas internacionais também relatam risco de radicalização do regime, a partir da ameaça existencial e dos seguidos mortes de integrantes da cúpula, que vêm sendo substituídos imediatamente por novos membros das respectivas hierarquias.

As trocas, seguindo as regras do país, indicam uma preparação prévia, e diferentes analistas consideram que o conflito ampliou o poder da linha-dura do regime e o papel da Guarda Revolucionária.

O ministro também disse que o conflito e as tensões militares agravam a busca por armamentos nucleares e que, atualmente, somente há tratativas de ordem bilateral e a ONU “desempenha papel secundário”.

Ao abordar aspectos econômicos, Vieira fez uma avaliação genérica de que a interrupção do fluxo no Estreio de Ormuz, rota de 20% do fluxo global de petróleo, afetará gravemente a economia mundial e provocará escassez de produtos e grande inflação.

Ele disse esperar que haja bom senso entre os dois lados em prol de uma negociação.

O chanceler citou a recente suspensão de sanções contra a Rússia, anunciada pelos EUA, por um mês, para evitar a disparada no preço do petróleo.

Segundo o ministro, o Brasil tem certa autonomia na produção de alimentos e combustíveis, sendo o nono maior produtor mundial de petróleo, mas as oscilações e dificuldades de transporte e navegação poderão gerar impactos muito grandes.

Vieira citou sobretudo a necessidade de busca de diversificação comercial como forma de se proteger de instabilidades. O ministro citou a busca por fornecedores de fertilizantes.

Ele afirmou que a questão é “complexa” para o Brasil, já que o Irã era um grande fornecedor de ureia para o País, insumo usado na agricultura. Na balança comercial, os fertilizantes representavam 79% das exportações iranianas ao Brasil. Ele citou conversas com países africanos e a Bolívia, entre outros.

O ministro afirmou que a comunidade brasileira residente nos 12 países do Golfo e do Oriente Médio atingidos pela guerra soma cerca de 70 mil pessoas, sendo 20 mil no Líbano, 15,5 mil nos Emirados Árabes Unidos e 14,5 mil em Israel.

Segundo Vieira, ele conversou por telefone com nove chanceleres dos países para pedir proteção e facilitação da saída dos brasileiros. Foram negociadas rotas terrestres de saída de Bahrein e Catar, para a Arábia Saudita, inclusive com negociação de vistos excepcionais que permitissem o trânsito por meio de Riade.

O ministro disse que alguns dos chanceleres prometeram tratar os brasileiros como se fossem cidadãos dos seus países. Ele falou por telefone – e chegou a mandar cartas – com os ministros dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordânia, Kwait, Bahrein, Catar, Omã, Líbano e Turquia.

O ministro reafirmou que o governo do Brasil condenou tanto os ataques dos EUA e Israel, que desencadearam a guerra, quanto a retaliação do Irã, que não estava de acordo com o direito internacional, e que os países da região do Golfo atingidos “evitaram” entrar no conflito, o que representaria uma escalada intensa do conflito, e adotaram gestões diplomáticas.

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