‘O preconceito vem de vários lados. Por eu ser jovem, ter privilégios e pela sexualidade’

Flor Gil puxou a veia artística da família mais musical do Brasil e, agora, dá seus primeiros passos na carreira. Nesta sexta, 5, Flor lança o EP Melíflua, em que revisita clássicos da música brasileira com arranjos do avô, Gilberto Gil. Enfrenta preconceitos – que não a acompanham desde sempre, já que sua família é sinônimo de liberdade. A música chega até ela com o apoio dos Gil e inspirada pela tia Preta Gil, com quem, segundo ela, é parecida “social e musicalmente”.

“Eu sou muito sortuda por crescer nessa família, por saber que eu queria ser cantora desde pequena”, diz ela, em entrevista ao Estadão. “Esse talento foi passado para mim, graças a Deus. Porque às vezes ‘pula’, né? Pulou minha mãe [a chef Bela Gil], mas veio para mim.”

Melíflua é o segundo lançamento de Flor neste ano. Em abril, a cantora lançou seu primeiro álbum de estúdio, Cinema Love, com a grande maioria das músicas em inglês e uma composição do avô, Saudade, parceria com Vitão.

Agora, Gil retorna de diversas formas em Melíflua. Fazendo arranjos de violão para a interpretação da neta para sua Duplo Sentido, de 1973, e para Corcovado, música de Tom Jobim de 1960. Saudade também volta em versão instrumental. Flor ainda incluiu Dindi, também de Tom, e Avarandado, de Caetano Veloso, no novo álbum.

A princípio, as cinco faixas fariam parte de Cinema Love. Melíflua também não teria a participação de Gil: a cantora cogitou usar samples (nome dado a um recurso em que uma música previamente gravada é incluída em outra). Ela, porém, decidiu lançar as canções clássicas separadamente e tomou coragem para convidar o avô.

“Ele ficou muito feliz, porque ele tinha gravado essa música [Duplo Sentido] anos atrás, e teve uma oportunidade de regravar, fazer de uma forma diferente comigo”, descreve Flor. “Foi muito legal… Fizemos ela no sofá, cantando e tocando juntos. Deu super certo e gravamos no outro dia.”

Pedras no caminho

Flor nunca teve dúvidas da importância da família para a música brasileira. Segundo ela, o acolhimento foi unanimidade entre os parentes depois que ela lançou seu primeiro disco.

Mas nada a blinda dos percalços do caminho. Lésbica, a cantora já teve que lidar com ataques nas redes sociais. Ela também conta que já enfrentou comentários negativos por ser muito jovem – ela ainda tem 17 anos – e por ser da família Gil.

Preconceitos vêm sempre, de vários lados. Por eu ser jovem, por eu ser de uma família de artistas e ter privilégios, ou da sexualidade.

“É sempre bom lidar com essas coisas da forma mais leve, entender de onde vem da pessoa. E, se for para escutar, escutar por um lado crítico e não por um lado doloroso”, diz ela. “Eu acredito que preconceito e julgamento fazem parte da carreira, e poder seguir com isso de uma forma mais leve e equilibrada faz bem.”

Preconceito, porém, não é algo que Flor teve de lidar desde o berço. À época em que falou sobre ser lésbica, por exemplo, a cantora recebeu apoio da mãe. “É orgulho que fala?”, escreveu Bela Gil em uma publicação sobre o assunto.

“Às vezes fico quietinha, porque sinto que não tenho muito lugar de fala… Venho de uma família muito calorosa, muito livre. E, sempre que escuto alguma coisa, eu tento ajudar ao máximo, trazer uma perspectiva influenciada pela minha família”, comenta ela.

Preta Gil

De todos os membros da família Gil, foi de Preta que surgiu a inspiração para que Flor seguisse a carreira musical. “Só o ser dela, sendo artista do jeito que ela era, me inspira até hoje e vai seguir me inspirando e me guiando muito”, diz a cantora.

Preta morreu em agosto deste ano, aos 50 anos, em decorrência de um câncer no intestino. Após a morte, Flor fez uma tatuagem com o nome da tia, assim como Francisco Gil, filho de Preta.

Flor diz se achar muito parecida com a tia “no sentido social” e “musicalmente”. Assim como a tia, a cantora conta também sempre querer estar rodeada “de amor e fazer de tudo para manter um laço com as pessoas”.

Como as semelhanças, também tinha as diferenças – mas essas diferenças nos completavam. E me completam hoje também. Eu consigo seguir mais uniforme.

Seis meses após a partida de Preta, Flor afirma que lidar com o luto ainda é difícil. “Eu nunca tinha perdido alguém na minha vida. Foi muito assustador. Foi uma morte muito pesada… Foi a primeira morte que eu vivi, e por ter sido ela, foi ainda mais intenso”, diz.

A cantora comenta que a morte a ensinou a “viver intensamente”, da forma como a tia viveu. Por desejo de Preta, a família e os amigos foram presenteados com diamantes feitos com as cinzas da artista.

“Ela amou essa ideia quando soube que tinha a possibilidade de fazer diamantes”, comenta Flor. “Os amigos próximos fizeram, minha avó tem um também. E nós, como família, decidimos deixar as cinzas dela nos pontos mais importantes para nós, para ela – os pontos que a representavam.”

O futuro na música

Nascida em Nova York, Flor estuda música e, tempos atrás, fez shows na cidade norte-americana. Mesmo colocando o inglês como protagonista em Cinema Love, a cantora diz querer apostar mais em uma carreira nacional do que em uma trajetória internacional. Ela conta que já planeja uma mudança para o Rio de Janeiro no próximo ano.

“[No Brasil], as pessoas são mais calorosas e tudo é muito próximo. Eu acredito que, aqui, a carreira vira mais diversão do que apenas trabalho”, diz. Flor também avalia que, musicalmente, há mais nomes com quem quer colaborar no País.

Se no primeiro disco a cantora se explorou como artista, no segundo, ela diz ter explorado as raízes da família. Para ela, seu futuro artístico é assim: feito pelos gêneros musicais que dão sentimento à sua música. “Quero continuar explorando mais e mais gêneros”, prevê.

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