Em nações com programas de rastreamento consolidados, a incidência da doença sobe e a mortalidade cai. No Brasil, a mortalidade cresceu nas últimas três décadas, um descompasso que estudos associam à cobertura insuficiente de mamografia.
Em boa parte dos países desenvolvidos, o padrão epidemiológico do câncer de mama segue uma lógica conhecida: a incidência da doença aumenta à medida que a população envelhece e os métodos diagnósticos se tornam mais sensíveis, enquanto a mortalidade cai, graças a programas de rastreamento consolidados e tratamento mais precoce. No Brasil, estudos indicam que a taxa de mortalidade por câncer de mama cresceu de forma sistemática nas últimas três décadas, um padrão que destoa do observado em nações com sistemas de rastreamento mais maduros.
Uma meta de cobertura que o país está longe de alcançar
O Instituto Nacional de Câncer estima que o Brasil deve registrar 73.610 novos casos de câncer de mama em 2025. Em 2023, mais de 20 mil mulheres morreram em decorrência da doença, com maior concentração de óbitos nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Segundo dados do próprio instituto, a meta de cobertura de rastreamento seria de 70% da população-alvo, mas a realidade brasileira está longe disso: a cobertura varia de cerca de 5,3% em alguns estados do Norte a 33% no Espírito Santo, o estado com melhor desempenho no país.
O Dr. Vinicius Rodrigues observa que uma meta de 70% não alcançada nem pelo estado mais bem posicionado do país revela um problema estrutural de cobertura, não um caso isolado de região carente. Segundo ele, rastreamento organizado só produz impacto real sobre mortalidade quando atinge parcela suficiente da população-alvo de forma continuada, e não como iniciativa pontual.
Uma desigualdade que também é social
O acesso ao rastreamento no Brasil varia de forma expressiva conforme escolaridade: levantamentos do INCA mostram cobertura de cerca de 49% entre mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, contra 77,8% entre aquelas com ensino superior completo. Essa disparidade se soma a diferenças regionais e, segundo estudos da área, também a diferenças por raça e cor.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, essa desigualdade de acesso ajuda a explicar por que o Brasil não reproduz o padrão observado em países ricos: parte da população segue realizando o exame com regularidade, enquanto outra parcela significativa permanece fora do radar do sistema de rastreamento, o que tende a resultar em diagnósticos mais tardios justamente entre quem tem menos acesso à informação e ao sistema de saúde.
Um sinal recente de melhora, ainda insuficiente
O relatório mais recente do INCA aponta um dado positivo: entre 2000 e 2023, houve redução proporcional na mortalidade por câncer de mama entre mulheres de 40 a 49 anos, faixa etária que passou a ter acesso ampliado ao exame no SUS em 2025. Ainda assim, o Sistema Único de Saúde realizou 4,4 milhões de mamografias em 2024, das quais apenas 2,6 milhões corresponderam à faixa etária prioritária de 50 a 74 anos, volume que especialistas consideram aquém do necessário para uma cobertura populacional efetiva.
O que essa lacuna estrutural exige da política pública?
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues pondera que ampliar regras de acesso, como ocorreu recentemente, tem valor limitado se não vier acompanhado de esforço concreto para elevar a cobertura efetiva do rastreamento, sobretudo entre populações historicamente menos alcançadas pelo sistema de saúde. Para ele, fechar esse descompasso entre meta e realidade é o que efetivamente vai determinar se o Brasil conseguirá, no futuro, reproduzir a trajetória de queda de mortalidade já observada em países com programas de rastreamento mais consolidados.
*Estadão Conteúdos/Foto: Internet


