De ‘bolsa-farelo’ a ‘direito’: Flávio Bolsonaro passou de crítico a defensor do Bolsa Família

Ao elogiar o Bolsa Família e defender a manutenção do benefício para quem ingressa no mercado de trabalho formal ou abre o próprio negócio, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) adotou um discurso diferente daquele que sustentava no passado.

Levantamento da AP Exata Inteligência a partir de publicações do parlamentar no X (antigo Twitter) mostra que, após a chegada do pai, Jair Bolsonaro (PL), à Presidência, em 2019, o hoje postulante ao Planalto, foi mudando sua opinião sobre o programa que chegou a chamar de “bolsa-farelo”.

Procurado, Flávio Bolsonaro negou que tenha mudado de posição (veja abaixo).

Na última segunda-feira, 15, durante evento promovido pela revista Veja, em São Paulo, Flávio classificou o Bolsa Família como um “direito adquirido do povo brasileiro” e criticou o preconceito contra os beneficiários.

“Muita gente tem um preconceito com relação a quem está na Bolsa Família, como se não quisesse trabalhar. É um erro isso. Quase 70% das pessoas que recebem o Bolsa Família trabalham informalmente. E não vão para a formalidade por quê? Porque têm medo de perder o benefício”, afirmou.

O senador prometeu que, se eleito presidente, garantirá que os beneficiários mantenham por mais tempo o auxílio após conseguirem emprego com carteira assinada ou abrirem uma empresa

“A gente tem que entender que tem uma memória afetiva até. O Bolsa Família é estabilidade para quem já passou fome. A pessoa pensa o seguinte: “se eu arrumar um trabalho de carteira assinada e perder o Bolsa Família, e se eu perder o meu trabalho, como é que eu vou ficar?”, disse. “Vou reafirmar que mais uma vez, garantir a elas que o benefício vai ser mantido, que nós vamos potencializar essa garantia a elas, para estimular que as pessoas possam ter um emprego formal.”

As falas contrastam com manifestações feitas por Flávio nas redes sociais antes de o bolsonarismo chegar ao Palácio do Planalto.

Em uma publicação de junho de 2013, o senador afirmou que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”.

No mesmo ano, fazendo uma referência à comissão responsável por investigar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, escreveu:

“#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”.

Flávio, que no evento da última segunda-feira fez questão de lembrar que o governo do seu pai aumentou o valor do Bolsa Família, no passado criticou o PT por costurar um acordo com a oposição para aprovar um reajuste do auxílio. “Financiamento público de campanha do PT”, escreveu, em publicação de 2011.

“O histórico de publicações no X mostra que o Flávio passou a defender o Bolsa Família a partir do governo do pai, em 2019. A primeira publicação positiva sobre o programa foi em outubro daquele ano, citando uma medida provisória, assinada por Bolsonaro, que concedeu o 13º aos beneficiários do programa”, diz Sergio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados

Para Denicoli, a estratégia de defender o programa faz sentido do ponto de vista eleitoral, pois, para recuperar a vantagem sobre Lula, Flávio precisa atrair eleitores moderados e se afastar de posições mais extremas, como acabar com um programa predominantemente aprovado pelos brasileiros.

Em nota, Flávio afirmou que não existe mudança de posição. “O Bolsa Família é um direito conquistado pelo povo brasileiro e foi o governo do Bolsonaro que triplicou o valor pago às famílias. Diferente do PT, que utiliza o benefício de forma clientelista, nós defendemos um caminho para a mobilidade social Exatamente por isso, uma das minhas propostas é a ampliação do tempo de permanência no programa a partir da conquista de empregabilidade e renda. Ninguém mais precisará ter medo de perder o benefício por buscar autonomia financeira.”

Senador tem dificuldades entre beneficiários do programa

Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira, 16, aponta que Lula amplia sua vantagem sobre Flávio no segundo turno quando o recorte são eleitores que recebem Bolsa Família.

No eleitorado geral, Lula vence por 49% a 43%. Já entre os beneficiários do programa social, o petista vai a 67% e o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro recua para 27%. A pesquisa entrevistou 2.017 eleitores entre os dias 12 e 14 de junho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o intervalo de confiança de 95%. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-06645/2026.

“Ao defender o Bolsa Família, Flávio agrega outros eleitores. Apesar de ter sido crítico no passado, o próprio governo do pai alterou o posicionamento do bolsonarismo em relação ao programa. E, enquanto estavam no poder, eles não acabaram com a política pública e deram o auxílio emergencial na pandemia, o que deu um boom positivo de popularidade para o Bolsonaro”, diz Denicoli.

Segundo o CEO da AP Exata, a declaração de Flávio sobre o Bolsa Família vem na esteira de outras falas recentes do senador que buscam amenizar sua imagem após a crise envolvendo o Banco Master e a produção do filme Dark Horse.

Os dados da consultoria mostram uma tímida recuperação. Flávio conseguiu aumentar o volume de menções positivas nas redes, mas segue ainda como mais criticado no ambiente digital entre todos os pré-candidatos. O índice de confiança do senador, que mede a sua credibilidade junto ao eleitorado, segue baixo: 12,44% na medição desta terça-feira, 16. Em janeiro, o índice chegou a 19,4%.

Flávio votou contra ‘Bolsa Família’ do Rio de Janeiro em 2011

Quando era deputado estadual, Flávio foi o único integrante da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a votar contra o projeto de lei que criou o programa Renda Melhor, proposto pelo então governador Sérgio Cabral em 2011.

A iniciativa era uma espécie de Bolsa Família fluminense e previa o repasse direto de recursos para famílias em situação de extrema pobreza. A proposta foi aprovada por 54 votos a 1. “Fui o único voto contra na Alerj ao projeto ‘Renda Melhor’, que (sic) chamei de ‘bolsa-farelo’, pelo seu caráter clientelista eleitoral”, escreveu Flávio no Twitter em novembro de 2011.

Ainda na rede social, ele relatou que apresentou uma emenda para estipular que dois anos seria o prazo máximo para que uma pessoa recebesse o benefício, que voltou a chamar de “bolsa-farelo”. A sugestão não foi aprovada.

“Eu entendo que cabe ao Estado fornecer meios àquelas pessoas que não têm condições de alcançar a autossuficiência no tocante à educação, no tocante à saúde, no tocante à ascensão social. Isso é algo legítimo. Mas não pode, como está escrito no projeto, isso ter um caráter permanente”, discursou Flávio na sessão que aprovou o texto.

 

*Estadão Conteúdo/Foto: Divulgação

Últimas Notícias

CNI: MP do Frete pode causar alta média de 16% à indústria, em especial na extração mineral

A Medida Provisória (MP) 1.343/2026 - que estabelece o...

G7: Lula diz que nunca foi esquerdista e que ONU deveria recomendar modelo de votação do Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse...

G7 emite uma declaração conjunta pedindo um cessar-fogo imediato no Líbano

Os países do G7 emitiram uma declaração conjunta nesta...

Passageira agride funcionários após discussão sobre check-in no Aeroporto de Guarulhos

Quatro funcionários da Latam foram agredidos durante uma confusão...

Nos sigaRedes Sociais

255,324FãsCurtir
0SeguidoresSeguir
128,657SeguidoresSeguir
97,058InscritosInscrever

NewsletterAssine

Fique Ligado

Vacina pneumocócica 20 está disponível em todas as UBSs do DF

A partir desta quarta-feira (17), famílias do Distrito Federal...

Após críticas à presidência, Gilmar homenageia Fachin por 11 anos no STF

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF),...

Segundo ciclo do RenovaDF oferece 1,7 mil vagas e novas regras de participação para ex-alunos

O Governo do Distrito Federal (GDF) lançou, nesta quarta-feira...

Lula critica comportamento ‘imperador’ de Trump e o chama de ‘mau exemplo’ em conversa no G7

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o...

CNI: MP do Frete pode causar alta média de 16% à indústria, em especial na extração mineral

A Medida Provisória (MP) 1.343/2026 - que estabelece o...

notícias relacionadas

Vacina pneumocócica 20 está disponível em todas as UBSs do...

A partir desta quarta-feira (17), famílias do Distrito Federal já podem encontrar a vacina pneumocócica 20 (VPC20) em todas as unidades básicas de saúde...

Após críticas à presidência, Gilmar homenageia Fachin por 11 anos...

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), prestou homenagem ao presidente da Corte, Edson Fachin, que completou na terça-feira, 16, 11 anos...

Segundo ciclo do RenovaDF oferece 1,7 mil vagas e novas...

O Governo do Distrito Federal (GDF) lançou, nesta quarta-feira (17), o segundo ciclo do programa RenovaDF, que agora vai receber também ex-alunos da iniciativa....

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui