Disparada do petróleo eleva defasagem do diesel a 85% e põe abastecimento em risco

A escalada das tensões no Oriente Médio, que levou o preço do petróleo a ultrapassar a barreira dos US$ 100 o barril, paralisou o mercado de diesel importado no Brasil. Diante do temor de que a Petrobras não repasse os preços internacionais dos derivados para o mercado interno, os importadores suspenderam as compras – uma vez que o preço a ser vendido aqui ficaria inviável -, informou o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araújo. O diesel importado responde por cerca de 30% do mercado interno.

“Desde o início do conflito não está chegando carga nova, o mercado está parado. O nosso diesel vem da Rússia e o problema é o preço, ninguém sabe se a Petrobras vai repassar esse aumento”, diz Araújo, prevendo que os estoques no Brasil garantem o abastecimento pelos próximos 15 dias.

Procurada, a Petrobras não se manifestou até a publicação desta reportagem.

A defasagem do diesel vendido pela Petrobras no Brasil em relação ao praticado no mercado externo atingiu um novo recorde, de 85%, abrindo espaço para uma alta de R$ 2,74 por litro, o que teria impacto direto na inflação no Brasil. A estatal está há mais de 300 dias sem reajustar o diesel.

Já a Acelen, empresa privada que controla a Refinaria de Mataripe, na Bahia, detentora de 14% do mercado de combustíveis do País, somente em março já elevou o preço do diesel em 26%. Apesar do aumento, a defasagem de preços de Mataripe ainda é de 42%.

A insegurança tomou conta do setor, segundo uma pessoa que trabalha na área e falou sob condição de anonimato. Com os concorrentes – a Refinaria de Mataripe e a Ream, em Manaus – incapazes de ofertar volume suficiente, filas têm se formado nas refinarias da Petrobras. Segundo essa mesma pessoa, a situação não pode se prolongar, sob risco de desabastecimento no País.

No caso da gasolina, o cenário é menos grave porque apenas 10% do consumo depende de importação. De acordo com a Abicom, a defasagem da gasolina em relação ao mercado externo é de 49%. Isso significa que a Petrobras poderia reajustar o preço em R$ 1,22 por litro.

Aumentar a mistura de biodiesel para reduzir a demanda do diesel, como já pediu a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), seria um “tiro no pé”, avaliam pessoas do mercado, já que o biocombustível é mais caro. No caso da gasolina, o etanol também está com os preços em alta e uma mistura maior do que a atual (30%) também acabaria tendo impacto no preço.

Cotação internacional

O petróleo tipo Brent abriu a manhã da segunda-feira em torno dos US$ 120 o barril, recuando para mais perto dos US$ 100 ao longo do pregão.

Para Isabela Garcia, analista de inteligência de mercado da Stonex, não houve exatamente um único fator ao longo do fim de semana que justificasse essa alta em relação a sexta-feira. “O que ocorreu, na verdade, foi a consolidação das expectativas de um choque de oferta no mercado de petróleo”, avalia.

Ela explica que a avaliação inicial era de que o conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã se resolveria rapidamente, o que não ocorreu. “Ao longo do fim de semana, ficou mais claro que a situação não está sendo resolvida Os fluxos continuam interrompidos e os ataques à infraestrutura energética no Oriente Médio seguiram ocorrendo”, diz.

Nesta segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que os países do G7 podem recorrer às suas reservas de petróleo de emergência em resposta à alta dos preços da energia, em linha com o que ocorreu em 2022, no início da guerra entre Rússia e Ucrânia.

“São medidas importantes e bem recebidas pelo mercado, mas a avaliação predominante é de que não serão suficientes para neutralizar totalmente o impacto do fechamento do Estreito de Ormuz”, afirma Garcia.

A analista prevê que essas ações podem amenizar parte da pressão no curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural. E, quanto mais tempo os fluxos permanecerem limitados – com a navegação efetivamente interrompida -, maior será a dificuldade de compensar esse choque de oferta.

“Por isso, o petróleo continua encontrando espaço para valorização enquanto não houver uma articulação mais clara entre os países do Oriente Médio, o Irã e outros grandes produtores globais no sentido de repor o volume que deixou de chegar ao mercado desde o início do conflito, que agora já se aproxima de dez dias”, avalia a analista, ressaltando que o cenário ainda não apresenta sinais de alívio no curto prazo, o que ajuda a explicar a valorização do petróleo neste início de semana.

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