Dólar recua para R$ 5,20 com maior apetite por risco no exterior

O dólar emendou nesta terça-feira, 17, a segunda sessão consecutiva de queda firme no mercado doméstico e flertou com fechamento abaixo de R$ 5,20. Apesar da ausência de sinais concretos de arrefecimento do conflito no Oriente Médio e da alta dos preços do petróleo, houve recuperação do apetite ao risco no exterior.

Como na segunda-feira, 16, o real figurou no grupo das três divisas emergentes e de países exportadores de commodities que mais ganharam terreno em relação ao dólar, ao lado do florim húngaro e do novo shekel israelense.

Operadores relatam eventual entrada de recursos estrangeiros para a bolsa doméstica, em dia de alta das ações da Petrobras, e o efeito benéfico para os ativos domésticos dos leilões de recompra de títulos pelo Tesouro.

Tirando uma elevação pontual no início dos negócios, o dólar operou em baixa no restante do dia. Com mínima de R$ 5,1776 à tarde, em sintonia com o exterior, a moeda encerrou em baixa de 0,57%, a R$ 5,2000. A divisa acumula recuo de 2,19% nos dois últimos pregões, mas ainda sobe 1,29% em março, após queda de 2,16% em fevereiro .

Para o head da Tesouraria do BS2, Ricardo Chiumento, a recuperação do real nos últimos dois dias não indica uma tendência para a taxa de câmbio. A atratividade das operações de carry trade, contudo, pode amenizar os impactos de eventual piora do ambiente externo sobre a moeda brasileira, observa.

A perspectiva é de continuidade do amplo diferencial de juros interno e externo com o provável desenlace da Superquarta – manutenção da taxa básica americana pelo Federal Reserve e corte de 0,25 ponto porcentual da taxa Selic, para 14,75%, pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

“O ambiente ainda é de bastante incerteza, apesar de o governo americano dizer que a guerra vai acabar em breve. A volatilidade tende a se manter elevada, com temores do impacto inflacionário da alta do petróleo”, afirma Chiumento. “Sem uma grande aversão ao risco lá fora, o carry elevado e a melhora dos termos de troca com a alta do petróleo dão certa sustentação ao real”.

Na última hora de negócios, o real perdeu parte do fôlego e se afastou das mínimas da sessão com aumento da percepção de risco local, após o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, confirmar a possibilidade de uma greve nacional de caminhoneiros até o fim desta semana.

Após o alívio na segunda-feira, as cotações do petróleo voltaram a subir, insufladas pelas incertezas em torno do tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz, por onde é escoada cerca de 20% da produção global da commodity. O contrato do tipo Brent para maio fechou em alta de 3,20%, a US$ 103,42 o barril, passando a apresentar valorização superior a 40% no mês e de mais de 70% no ano.

No fim da manhã, a commodity chegou a operar ao redor da estabilidade na esteira de declarações do diretor do Conselho Econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, de que o conflito no Oriente Médio vai “acabar em breve” – mensagem reforçada por Donald Trump à tarde. O presidente dos EUA criticou aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) por recusarem auxiliar os americanos a manter o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operava em queda de pouco mais de 0,10% no fim da tarde, ao redor dos 99,580 pontos, após mínima aos 99,502 pontos. Destaque para os ganhos da coroa norueguesa, mais ligada aos preços do petróleo. O Dollar Index recua 0,90% nos dois últimos dias, mas ainda avança em março (1,98%).

O Goldman Sachs observa que o DXY subiu cerca de 2% desde o início do conflito no Oriente Médio, no fim de fevereiro. As atenções seguem voltadas ao aumento dos custos de energia, com investidores mais preocupados com impactos inflacionários do que com a eventual desaceleração do crescimento econômico.

Em seu cenário base, o banco prevê normalização do fluxo pelo Estreito de Ormuz até o fim de abril, com os mercados prevendo um arrefecimento rápido do conflito. A leitura do banco é que as moedas emergentes seguem, por ora, suscetíveis a episódios de aumento de aversão ao risco.

“O real, porém, deve ter o espaço mais claro para uma rápida reversão, já que, em última instância, se beneficia de preços mais altos de energia. E o carrego elevado deve amortecer qualquer nova depreciação”, afirma o Goldman Sachs.

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