Adaptar um livro para as telas não é tarefa fácil, ainda mais um clássico infantojuvenil amado como O Gênio do Crime. Com o filme que chega aos cinemas nesta quinta, 14 de maio, a equipe responsável pela adaptação resolveu dobrar a aposta: o longa-metragem traz a história para os dias atuais, com uma trama ambientada durante a Copa do Mundo de Futebol de 2026.
Publicado originalmente em 1969 por João Carlos Marinho, o livro apresentou a Turma do Gordo – Edmundo, Pituca, Bolachão (que no filme será João/Gordo) e Berenice -, crianças que se unem para resolver um mistério envolvendo uma fábrica clandestina de figurinhas. A obra virou um marco da literatura infantojuvenil, deu início a uma coleção de sucesso e é até hoje lida em escolas ao redor do Brasil.
O produtor Tiago Mello, que liderou a equipe do filme, havia sido impactado pelo livro na infância e contatou a família de Marinho – o autor morreu em 2019, aos 83 anos – para negociar os direitos de adaptação da obra. Foram muitas conversas em que ele explicou sua visão para o projeto: apresentar o universo do escritor para uma nova geração, mas com um filme que pudesse levar toda a família aos cinemas.
Com a aprovação dos filhos do escritor, Mello passou para o roteiro; ele diz que foram muitas versões até chegar à versão final escrita por Ana Reber. Depois, recrutou para a direção Lipe Binder, profissional que trabalhou por anos na Globo e agora faz sua estreia em longa-metragem. Ele não demorou a aceitar o convite.
“Grande parte do audiovisual brasileiro quer contar histórias brasileiras. Vivemos em um mercado cheio de fórmulas, o streaming tomando conta, mas o Brasil tem muitas histórias para contar. Acho que ajuda trazer a nossa identidade visual, de ter um audiovisual brasileiro. Usar os nossos livros para contar histórias brasileiras é muito importante”, diz.
E o filme realmente parte de uma premissa bastante brasileira: durante a Copa do Mundo de 2026 – o timing de lançamento não poderia ser melhor -, Edmundo (Samuel Estevam) encontra a figurinha rara de Vinícius Júnior que lhe faltava para completar o álbum. A fábrica que produziu o álbum garantia que quem encontrasse o item ganharia uma viagem para a final da Copa.
Ele e os amigos, João (Francisco Galvão) e Pituca (Breno Kaneto) vão até a fábrica resgatar o prêmio, mas encontram uma multidão de pessoas revoltadas por também terem encontrado a figurinha premiada. O dono da fábrica, Seu Tomé (Ailton Graça), diz que alguém está falsificando as figurinhas, o que poderia levar a fábrica à falência.
O trio logo se envolve na investigação do caso, recrutando também Berenice (Bella Alelaf) após se infiltrarem na escola rival como parte da apuração. “No livro, ela entrava mais para o final e adaptaram no filme para ela entrar mais para a metade. Quando eu descobri que passei, eu li o livro para me inspirar e colocar essas características no filme”, conta Bella.
A maior participação de Bere é uma das mudanças que os produtores acreditaram que traria mais frescor à história, mas não foi a única. “Por incrível que pareça, hoje em dia a adaptação está um pouco mais delicada. Mudou muita coisa. Fizemos algumas adaptações para deixar a história mais contemporânea. Por exemplo, no livro, o Gordo, todo mundo chama ele de gordo, tem farelo de comida na mochila dele, ele passa pela padaria e fica olhando um sonho. Nós não achamos isso apropriado para os dias de hoje”, explica Binder.
No filme, “Gordo” é um apelido para os amigos íntimos, como o protagonista e os colegas deixam claro mais de uma vez na tela. O nome do personagem, João, foi escolhido como uma homenagem ao autor do livro.
Apesar das atualizações, a equipe também buscou trazer referências que remetessem à nostalgia do público mais velho. Há algumas referências ao cinema policial mais clássico e até outros elementos mais óbvios: em determinado momento, o professor de educação física das crianças, Caíque (vivido por Douglas Silva), usa uma fita cassete para mostrar uma gravação às crianças.
Direção e elenco também ressaltam alguns elementos que unem as gerações e as épocas do filme e do livro, a começar pelas figurinhas, que já eram o tema central da obra de João Carlos Marinho e continuam sendo febre entre crianças e jovens, especialmente na época da Copa.
“Sem querer fazer trocadilho, mas já fazendo, essa troca de figurinhas que vai acontecer esse pais e filhos potencializa as relações. Um pai, quando pega um álbum de figurinhas de 1994 e mostra para um filho que tem dez anos, vai falar: ‘olha, a gente voltou a ser campeão [naquele ano]’. Eu acho que o filme vai ajudar nessa troca de informações também”, diz Marcos Veras, que vive Mister Mistério, um detetive que quer resolver o enigma das figurinhas antes da Turma do Gordo.
O ator também destaca que o filme tem potenciar de resgatar a coletividade entre as crianças. “Vivemos em uma era da tecnologia, do celular, que individualiza as brincadeiras. Está todo mundo com a cara no celular, inclusive nós adultos. Resgatar essa coisa da turma, da amizade, ‘a gente não faz nada sozinho’, vamos investigar, é muito bacana para as novas gerações olharem isso com mais carinho”, explica.
“Sem falar no futebol, né?”, completa Douglas Silva, cujo personagem tem particular relação com o tema. “Brasileiro não falar de futebol, não tem como. E não só em ano de Copa. No Mundial de Clubes, a gente estava rodando e parava para assistir Ou seja, como o futebol move o brasileiro. Então, resgatou o álbum de figurinhas, juntou com essa temática de turma e com o futebol, não tem como. São assuntos que nossos avós e pais falaram e nossos filhos e netos também vão falar.”
Para construir esse espírito de turma, era importante que o elenco mirim realmente transparecesse a amizade na tela. Por conta disso, Francisco Galvão, Bella Alelaf, Samuel Estevam e Breno Kaneto, todos já pré-adolescentes, tiveram um mês de preparação antes das filmagens para que pudessem se conhecer e se adaptar para as gravações.
“O laço que criamos foi muito rápido. Na segunda semana que estávamos nos encontrando parecia que já nos conhecíamos há anos”, diz Bella. Breno Kaneto completa dizendo que isso também ajudou na construção dos personagens: “O meu laço com todo mundo foi muito rápido porque eu – e meu personagem também – sou muito amigável. Logo que conhece alguém já vira amigo.”
A atriz da Berenice explica que nas gravações o grupo tinha uma regra clara: dentro no set, era hora de se concentrar e focar nas filmagens. Douglas e Marcos, que tiveram muitas cenas com os jovens, atestam. “Quando eles viam que era o momento de gravar, eles pararam, se concentravam e faziam. Isso foi muito bacana”, diz Douglas.
Francisco completa que também havia flexibilidade dentro do set: “Em diferentes cenas, poderíamos nos soltar mais um pouco e, em outras, ficar mais sérios e concentrados”. O ator cita as cenas externas gravadas no centro de São Paulo, em que precisavam estar focados justamente por serem locais de muito movimento. “A cidade não parava para a gente gravar, então exigia um pouco do nosso foco”, diz Samuel.
A produção gravou majoritariamente em julho de 2025 e passou por quase 30 locações, inclusive pelo parque gráfico do Estadão, que foi transformado na fábrica de figurinhas do Seu Tomé, a Escanteio. A locação fez tanto sucesso que outros ambientes do filme foram adaptados para serem gravados lá também
Depois de um ano de trabalho, elenco e direção esperam que as famílias se reúnam nas salas de cinema. “A expectativa é que os adultos, como nós, relembrem das suas próprias crianças. E também de estabelecer esse gênero no cinema brasileiro – não é infantil, é infantojuvenil, e tivemos pouco público e poucos produtos. Eu espero que a criançada goste e a gente traga esse gênero para cá e mostre que sabemos fazer também”, finaliza Binder.


