Obesidade, demências e câncer: quais hábitos fazem diferença quando o assunto é prevenção?

Durante muito tempo, falar em prevenção de doenças significava pensar em exames, consultas médicas e, muitas vezes, em “destino”: algumas pessoas teriam mais sorte, outras menos.

Mas a ciência vem mostrando um cenário mais complexo. Os genes importam, mas não contam a história toda. A forma como cada pessoa vive, o ambiente em que está inserida e os hábitos construídos ao longo da vida têm influência no risco de desenvolver diferentes doenças – incluindo câncer e demências.

O tema foi discutido durante o lançamento do Pulsa, do Estadão, realizado na terça-feira, 30, na Casa Natura Musical, em São Paulo. O painel “Estilo de vida e prevenção de doenças” reuniu a oncologista Renata Arakelian, dos hospitais Nove de Julho e Santa Paula, da Rede Américas; o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes; e a nutricionista Desire Coelho, especialista em transtornos alimentares e análise do comportamento.

O câncer não é apenas uma questão genética

Quando se fala em câncer, uma das primeiras associações costuma ser com a genética. Surge aquela dúvida bastante comum: “Alguém da minha família teve, então eu também vou ter?”. Mas, segundo Renata, essa visão pode levar a uma falsa sensação de inevitabilidade.

Segundo ela, os cânceres hereditários representam apenas cerca de 7% a 10% dos casos. Na maioria das situações, o desenvolvimento da doença é resultado de uma combinação de fatores, que envolve desde características individuais até o ambiente em que a pessoa vive e os hábitos construídos ao longo da vida.

Essa relação entre estilo de vida e câncer, porém, ainda não é totalmente conhecida por grande parte das pessoas, embora seja amplamente difundida por instituições como o Ministério da Saúde, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS).

Entre as principais medidas de prevenção estão reduzir o tabagismo, manter uma alimentação equilibrada – com maior presença de vegetais, frutas e grãos, sem deixar de lado o tradicional arroz e feijão -, controlar o peso, praticar atividade física, dormir bem e reduzir o consumo de álcool.

“São coisas que não são complexas, mas também não são simples. É preciso ter consistência, e nem sempre é fácil manter isso na rotina”, observou Renata.

Por outro lado, a prevenção também passa por abandonar a ideia de perfeição e construir uma relação mais gentil com o processo. “Uma exceção ou um momento de exagero não define a saúde. O que realmente importa é o padrão mantido na maior parte do tempo”, orientou a oncologista.

O cérebro envelhece melhor quando é cuidado

A mesma lógica vale para o cérebro. O envelhecimento é um dos principais fatores de risco para doenças neurodegenerativas, como as demências. Mas, cada vez mais, estudos mostram que uma parte desse processo não está apenas no tempo que passa, mas também na forma como o cérebro é estimulado e cuidado ao longo dos anos.

“O corpo e o cérebro não funcionam separados. A atividade física, por exemplo, não beneficia apenas músculos e coração”, afirmou Gomes, que também é colunista do Pulsa. “Substâncias são liberadas durante a atividade física que ajudam o aparelho cardiovascular, mas também existem efeitos neurotróficos, que favorecem o funcionamento do cérebro.”

Além do movimento, fazem parte desse cuidado hábitos como manter uma alimentação equilibrada, controlar doenças como diabetes e hipertensão, evitar tabagismo e moderar o consumo de álcool.

Mas o cérebro tem algumas necessidades próprias: ele precisa ser estimulado. É aqui que entra o conceito de “reserva cognitiva” – atividades que “blindam” o cérebro contra o declínio cognitivo. “Isso inclui aprender coisas novas, estudar, manter relações sociais e seguir interagindo com o mundo”, explicou Gomes.

Nesse ponto, vale uma atenção também para a audição. Para o neurocirurgião, a perda auditiva deveria receber a mesma atenção que a visão já recebe com o uso de óculos. “Precisamos entender que a entrada auditiva é muito importante para que o cérebro continue sendo alimentado por informação”, afirmou.

O sono também tem papel importante nessa história. Ainda existe a ideia de que, ao dormir, o cérebro simplesmente “desliga”. Mas é justamente nesse período que acontecem processos importantes, como a consolidação da memória, o equilíbrio neuroquímico e a regulação de áreas ligadas às emoções.

“Dormir não é perda de tempo. O cérebro realiza tarefas importantes durante o descanso”, disse.

Alimentação saudável não é uma lista de restrições

Quando o assunto é alimentação, Desire observa uma mudança gradual na forma como as pessoas enxergam saúde. Comer bem e fazer exercício deixaram de ser associados apenas à estética, mas essa história ainda está longe de ser a ideal.

Segundo ela, ainda existe uma tendência de transformar alimentação em uma busca por nutrientes isolados: mais proteína, mais fibra, menos carboidrato, determinado suplemento ou dieta, e por aí vai. “Mas reduzir a alimentação a um único componente pode afastar as pessoas de uma relação mais equilibrada com a comida e a saúde. Todos os nutrientes são importantes”, disse a especialista, que tem coluna no Pulsa.

A discussão ganha ainda mais relevância no contexto da obesidade, hoje reconhecida como uma doença crônica associada a um maior risco de diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Para a nutricionista, tratar a prevenção apenas como questão de força de vontade ou de escolhas individuais simplifica um fenômeno que envolve genética, ambiente, acesso à alimentação de qualidade e fatores emocionais.

“Não existe resposta metabólica igual entre as pessoas. O mesmo padrão alimentar pode gerar efeitos muito diferentes”, afirma. Por isso, diz ela, comparar resultados ou apostar em soluções únicas tende a gerar frustração e não mudança sustentada.

Na prática, isso também se reflete na atividade física: mais do que buscar o exercício “ideal”, a prevenção depende de formas de movimento possíveis de manter na rotina. “Isso pode significar uma aula de dança na sala de casa. Esse pode não ser o ideal imaginado, mas é o possível”, disse a nutricionista.

Fugir dos “atalhos” e da desinformação

Quando o assunto é prevenção, um bom conselho é fugir dos atalhos. E esse ponto foi consenso entre os especialistas. Afinal, a mesma cultura que incentiva as pessoas a cuidarem mais do corpo também criou uma pressão por uma versão “otimizada” de si mesmas: mais energia, mais foco, mais músculos, menos gordura e resultados cada vez mais rápidos.

O problema é que muitas das fórmulas usadas para “otimizar” a performance acabam causando danos em diferentes áreas do organismo.

“Hoje vemos, por exemplo, o uso de estimulantes para entregar mais no trabalho ou nos estudos, ou de hormônios, como a testosterona, para ‘crescer’ mais na academia”, disse Gomes. “Mas a verdade é que, a longo prazo, isso vira uma bagunça para o cérebro, o sistema endócrino, o coração e para outras funções do organismo. É um indivíduo que bagunçou todo o seu eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e outras questões metabólicas”, afirmou o neurocirurgião.

Na nutrição, Desire observa um movimento semelhante. A busca por uma “saúde perfeita” impulsionou o consumo de suplementos e vitaminas, muitas vezes usados sem indicação ou necessidade. Embora sejam geralmente vistos como “inofensivos”, essas substâncias também podem trazer riscos quando utilizadas de forma indiscriminada.

Como exemplo, ela citou o caso de uma paciente que se preparava para engravidar e chegou ao consultório fazendo uso de diversos suplementos, o que resultou em alterações que antes não apresentava. “Ela já estava com a vitamina D altíssima, acima de 70, vitamina B12 acima do valor de referência e alterações nas enzimas do fígado que nunca tinha tido”, contou.

No caso do câncer, a lógica não é muito diferente. O problema é que o diagnóstico coloca o paciente em um momento de especial vulnerabilidade. “Quando a pessoa recebe um diagnóstico de câncer, parece que o chão abre. Ela quer fazer tudo o que estiver ao alcance dela. E, aí, existe uma linha muito tênue entre aquilo que tem evidência científica e aquilo que é uma promessa”, explicou.

É nesse cenário que surgem alguns dos principais mitos na oncologia: dietas restritivas, suplementos, chás e a ideia de que determinados alimentos poderiam alimentar ou eliminar tumores. “Mas não existe uma única dieta, suplemento ou hábito capaz de mudar, sozinho, a evolução de uma doença, seja qual for “

 

*Estadão Conteúdo/Foto: Reprodução Estadão

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