Violência psicológica é a forma de abuso mais percebida por ginecologistas, diz pesquisa

A violência psicológica é a forma de agressão mais frequentemente percebida no consultório por ginecologistas e obstetras, segundo pesquisa realizada pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Em segundo lugar está a violência sexual, seguida das violências física e patrimonial, definidas pela Lei Maria da Penha como:

violência psicológica: qualquer conduta que cause danos emocionais e diminuição da autoestima da vítima ou que prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento; que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

violência sexual: qualquer conduta que constranja a vítima a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou utilizar sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

violência física: qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal;

violência patrimonial: qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer as necessidades da vítima.

De acordo com o levantamento, 57% dos ginecologistas atendem casos de violência contra a mulher ao menos ocasionalmente e 15% afirmam atender vítimas de violência frequentemente, evidenciando a recorrência do problema na prática clínica – de 2011 a 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) contabilizou 2,1 milhões de notificações de violência contra mulheres.

Nem todos os médicos, porém, dizem estar preparados para lidar com essa situação. A maioria dos respondentes declara preparo intermediário para lidar com a violência contra a mulher, e 23% dos profissionais relatam sentir-se pouco ou nada preparados.

A pesquisa mostra ainda que 46% dos profissionais abordam o tema com suas pacientes apenas quando há sinais evidentes; 26,55%, apenas quando a paciente relata espontaneamente; 14,48% realizam abordagem rotineira; e 12,41% raramente ou nunca abordam a violência.

Quanto aos principais desafios enfrentados pelas pacientes nessa esfera, os profissionais destacam a falta de rede de apoio e questões legais ou burocráticas.

A pesquisa foi feita com 290 ginecologistas e obstetras de cinco estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí e Rio Grande do Sul) por meio de um questionário com perguntas fechadas e múltipla escolha. A participação era voluntária e anônima. Mais de 72% dos respondentes têm mais de 50 anos e 61% atuam tanto na rede pública quanto na rede privada.

Orientações para os médicos

A partir dos resultados do levantamento, a Febrasgo prevê ações visando reforçar o papel do ginecologista e obstetra como agente essencial na rede de proteção à mulher e combater o cenário de violência.

No âmbito educacional, a entidade informa que produzirá conteúdos, capacitações e orientações para apoiar o profissional no reconhecimento e manejo de situações de violência. Em relação à área científica, ela afirma que irá incorporar o tema a eventos, congressos e discussões técnicas.

Também para orientar os profissionais sobre como conduzir atendimentos de vítimas de violência de forma mais humanizada, acolhedora e responsável, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) lançou nesta segunda-feira, 9, o guia “Boas práticas no atendimento médico às mulheres vítimas de violência”.

“O médico precisa usar uma linguagem acolhedora e respeitar o tempo da paciente. Não pode ser uma consulta rápida de pronto-socorro. Ele também tem que entender os limites que ela impuser durante a conversa inicial, além de adotar uma escuta qualificada e acolher a paciente sem julgamentos”, diz Flavia Bassanezi, vice-corregedora do Cremesp e coordenadora do guia.

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